sábado, 3 de setembro de 2016

Medir o tamanho da própria disponibilidade

A leitura de amanhã Lc 14,25-33, Jesus diz que quem não colocar em segundo plano família, quem não renuncia a todos seus bens, não pode ser seu discipulo.
Oras, o que é ser discípulo de Jesus? É ir em missão Dele. Há no mundo pouco mais de um cristão para cada sete pessoas. O Brasil seguiu um projeto cristão. A benevolência do padre Anchieta em dar soro anti-peçanha aos indíginas, não negociar esse benefício pela conversão... fez que os contingentes de cristãos prevalecessem aos de islâmicos e judeus, que aparentemente vieram em número semelhante de comunidades iniciais. Quem mais amou o próximo ganhou o País. E o próximo era o índio. Mas aqui havia nenhuma estrutura estabelecida, como na Guatemala.
E Jesus ainda lança uma parábola, dizendo para as pessoas medirem bem suas capacidades. Não é pouca coisa ser cristão dentro de sua família. Mas pode um cristão ir a outro País com nitidez de propósito e de coração, e lembrar exaustivamente da família, dos bens? Os discipulos de Jesus ganharam o mundo. Um discipulo aprende um novo idioma com facilidade, provavelmente.
Sermos todos discipulos de Jesus... oras, ele que gostava de ser chamado de Filho do homem, no fim de seu percurso nos tratou todos por ovelhas, aqueles que o seguiam.
Ser pastor é uma dimensão muito imensa da vida de uma pessoa. Ela tem que medir se aguenta mesmo. Isso tem mais a ver com a qualidade da igreja que com seu tamanho. As igrejas são nossos apriscos. O altar é que é santo. O que se coloca sobre o altar, a santificassão do altar. Tem quesitos cerimoniais que são críticas. Aproximar-se do altar... por exemplo... quem está lá no cotidiano da igreja é comum subir os degraus para fazer a liturgia. Mas somos ovelhas. Há uma itinerância que talvez devesse ser mais estimulada. Mas os leigos que não conseguem de desapegar de família e bens... são ainda grandes no Reino, se seguirem Deus. Seguir Jesus é diferente de seguir Deus. Jesus chama no íntimo, eu suponho. A pessoa mede suas forças e vê se consegue ir adiante. Deus é um só diante de todos. Devemos segui-lo. Mas ser discípulo... talvez envolva ser brasileiro pregando nas igrejas da Croácia enquanto padre... por exemplo. Isso para não falar de missões... de povos pagãos, judeus... o que é pregar a toda criatura hoje em dia... E os cristãos há muitos deles que estão muito sofridos. Talvez ser discípulo envolva um intercâmbio internacional, interestadual que esteja por ser mais estimulado. Eu não sei. Mas as parábolas de Jesus são claras, das condições e da dificuldade que é ser discípulo. E não ser discípulo não significa não estar com Jesus, eu suponho. Ser discipulo talvez seja estar bem próximo do exercício da vontade do Pai. E se há força na pessoa para seguir esse chamado... A castidade é um assunto que convém esquecer. Não sabemos o que é ser discípulo por não sermos... não nós que sofremos e lutamos para que a condição da família seja parte da vida plena e abençoada.
Mas se a condição é... é a melhor coisa viver numa sociedade com discípulos. Não podemos nos furtar a verdade. A verdade que Jesus diz é dura. Mas mantemo-nos grandes no céu por não sermos discípulos se não somos capazes disso. Se temos limites, é a condição de cada um para seguir Jesus. Se não conseguimos, não conseguimos. Se somos ovelhas, que sejamos ovelhas e não cabritos (?). E mesmo essa condição é difícil. Ser ovelha. A dificuldade é ser salvo, afirmar o Reino e amar o infinito que é parte de Deus Pai e o finito também. Porque ele nos quis assim. Quem de nós é capaz de afirmar que o Reino de Deus está próximo? A orientação está clara na Bíblia e não dizemos isso... discipulo é quem diz isso, que o Reino de Deus está próximo.
O lugar da família em cada um é discutido nesses versículos de Cristo. Ele que veio para ser sinal de divisão. Ele que é expresso por sinais de divisão. Ele, que veio para separar. Mas a impressão que tenho é que ser discípulo envolve mais uma prática e uma estratégia territorial do ir e vir do que de preparo interno para receber a mensagem do Reino.
Mesmo ser padre e recusar seus bens... teoricamente sua paróquia, seu exercício de pregação numa paróquia... talvez seja um desafio louvável de se recusar. Mas talvez seja assunto da igreja o encontrar o lugar de reencontro. Porque na Bíblia, quando Jesus envia os 72 para anunciarem o Reino de dois em dois... depois se reúnem. E onde está Jesus hoje em dia? Qual é o local de retorno dos discípulos? É onde se apresenta o desafio de reunião inicial.
As portas do céu estão ai para os vivos se ligarem a Deus Pai. E amá-lo e amá-lo e amá-lo.
E não somos capazes de identificá-las e preservá-las. Há demônios para serem expulsos, doentes para serem curados. Os discípulos atuais não contam com João Batista que abriu caminho físico para Jesus. Jesus a impressão que tenho era quase um romeiro de João Batista. Hoje em dia recochecer a necessidade de expulsão de demônios e cura de doentes é um caminho para entender a atividade missionária. O Jesus vivo que dos céus orienta, aos pastores, aonde está a vontade do Pai para nosso bem. Eu falo como ovelha. O que Jesus quer da humanidade acredito ser viver a vitória que ele nos deu. Favorecer os dons do Pai. E estabelecer o Reino.
E não estamos sintonizados com o Pai. Não estamos favorecendo o exercício de um dom do Pai. As pessoas se alimentam mal, se vestem mal e exercitam mal suas profissões; muitas das pessoas.
A população cresceu e há uma indisposição de mudança de geração. A população dobra, nosso tamanho diminui pela metade. Em 40 anos aconteceu isso. Estamos mal adaptados. E recebemos padres de fora de São Paulo? Recebemos. Mas é triste ver gente tão sofrida no Santuário de Nossa Senhora de Aparecida. Tem muita gente nos campos com dificuldade extrema de chegar a cidade. Talvez porque não saibamos afirmar a necessidade das cidades existirem enquanto fator normal do estabelecimento da civilização. Simplesmente aceitamos que tem gente que mora no campo e gente que mora na cidade. Essas pessoas estão sofrendo muito e nos fazendo mal. Vivendo na melhor das intenções. A cidade é um fator de vida da comunidade que não devíamos negar as pessoas. Independente do que se produza nos campos e nossa dependência disso. E como ir ao encontro dessas pessoas?
O poder é maior do que pensamos. Uma pessoa enclausurada é a obstrução de muitas. Não podemos aceitar que gente fique confinada nos campos. A cidade é um espaço de revivificação de vínculos humanos. É ir e voltar. Deixar claro. Se acontecer algo maior que a intenção de cada um... tudo bem. Mas é importante ir para a cidade e voltar para o campo, não se mudar. Acreditar, acreditar, acreditar que quando voltar pro campo vai ser melhor. Mas ir e voltar. Se os campos estão vazios, quem está no campo, 74% da agricultura é familiar e 20% da população está nos campos... a dependência do campo das pessoas que nele vivem talvez seja mais acachapante do que o vínculo que supomos ter na cidade com ela mesma.
Fui para a Serra Gaúcha e pude conhecer pessoas de idade que nitidamente se dedicaram a vida inteira ao campo. Com gosto, para termos vinhos e frutas. Pessoas que aparentemente estão doentes.
Que criaturas são essas que já sendo cristãs estão sofrendo tanto? Com as mãos, os braços de cores estranhas ao rosto.
A igualdade não existe. Há pessoas ruins e pessoas ponderadas, moderadas. Questões que aparentemente independe de questões de riqueza. A igualdade como tema básico para promoção da equidade social está nos desviando da localização da problemática humana: caminhar para ser sábio e não ímpio.

Jesus transmite a palavra do Pai. O Pai é bom. O calculo do Pai é que é melhor seguir Jesus e renunciar os bens... há nenhuma crueldade em deixar a família para seguir Jesus, portanto. O que mede é a dificuldade que existe em nossos corações. Reservá-lo todo ao Pai ou compartilhá-lo com Jesus. Somos justificados quando reconhecemos o tamanho de nossas faltas. O mandamento é amar o Pai de todo coração. Somos justificados quando nos reconhecemos pecadores, quem sabe, pecadores por dividir nossos corações com parentes e Deus Pai. E se há quem consegue amar o Pai de todo coração... porque recusar e ainda, desejar o convívio com essas pessoas? Não sei se há prazo para ser discípulo, se depois o marido, a esposa voltam. Se o marido ou a esposa ficam disponíveis para novo casamento se o cônjuge vira discípulo. Eu não tenho resposta para tudo. Mas acho que ser discipulo deve ser uma condição da vida tão boa que a luz e a paz que pessoas assim transmitem envolvam nenhum impedimento em se entender que o caminho que se estabeleceu para um indivíduo é maior e que cabe nele.

Jesus nos separa por inteiros. Esses versículos levam a entender a formação das ordens, das congregações. Mas também a entender o que a mensagem cristã diz em cada um de nós. As condições de paz são do alto, quando nos percebemos incapazes de seguir o caminho da luz celeste.

O que não devemos é nos bloquear num grupo de versículos. A prática da fé cristã pode ser incluída em decisões menores do que se convencer que é capaz ou não de ser discípulo. A vida talvez diga aonde ir com mais clareza do que as rotas de transporte internacional por via aérea. Sabemos que se formos a Salvador conheceremos mais da história do Brasil. Sabemos que se formos ao campo encontraremos irmãos enclausurados que sentirá vida só em ver nossa presença anunciando o Reino. Somos capazes de perceber o resultado de certos objetivos alcançados. Deus Pai nos dá dicas de um mundo melhor na Bíblia. Temos de senti-las e aproveitá-las para amá-lo de todo coração.
As vezes, simplesmente sabemos aonde ir e temos como fazer isso. E são caminhos menos fáceis de perceber que as rotas internacionais de aviação. Não se trata só de coração, mas de fé. A fé diz aonde ir, a fé diz o que fazer e o que não fazer. E se cabe a fé de discípulo em nós... devemos sê-lo. Se não cabe, devemos sê-lo mesmo assim.
Jesus nos dá todos os caminhos mesmo quando só nos apresenta alguns caminhos. Ele não perdeu a oportunidade de nos dizer como segui-lo. E tão sábio foi que nos preparou para fazer isso em sua ausência. Ele que nos amou como descendente pobre, mas poderoso, de David. Ele que, assim sendo rico, se fez pobre. Para nos mostrar um novo jeito    de ser. De ser humano.
Se em Jesus nossos bens não nos fazem falta... Que chamado e nitidez é essa para que depois de um tempo não nos digamos incapazes, como nas parábolas. Que chamado é esse que nos mostra na pobreza a vida plena, o que inclui ser saudável.
Que chamado é esse?
Ele diz que poucos são chamados.
Não devemos medir quantos são poucos. Devemos refletir sobre o que Jesus nos diz. E medir o tamanho da própria disponibilidade. Se receio da aparente pequenez.
Se o chamado maior vem, e somos incapazes? É melhor ser justificado assim que não ser justificado.
É melhor humilhar-se e ser exaltado conforme a vontade do Pai. E assim dar a Ele o que é Dele. A imagem e semelhança Dele, cada um de nós... que Nele acredita e confia.

Eu quero viver num mundo com discípulos de Jesus. E se eu não for um, tudo bem.



Desenho de Ivald Granato